domingo, 19 de novembro de 2006

Bairro Novo

Sair do Centro da cidade para ir morar ali. A familia toda! Não haveria de ser possível que todos amassem a idéia e mais ainda que todos aceitassem a idéia assim, naturalmente. Ir morar em um bairro nobre seria ótimo. Magnifico, não fosse o simples fato de terem morado a vida inteira no Centro da cidade. Os filhos, que eram 6, sentiriam falta. Não dos amigos, que àquela época já nao se viam a todo tempo, mas sim da nostalgia de ver a todo o tempo os amigos. Um negocião, havia dito o patriarca, pois seria o primeiro morador daquele novo prédio, naquele novo bairro. Poderia até escolher a garagem do seu Maverick!
E eles se mudaram. Nem todos eles, é verdade. O filho mais velho havia ficado naquela casinha que morara a tantos anos. Ficou por causa da sua vó. Não porque tinha que cuidar dela nem nada. Ficou porque a amava e a queria por perto. A velha não andava de carro de jeito nenhum. Ônibus, tampouco. Morria de medo. Ia todo dia do Barbalho até o centro, caminhando, às 5 e 45 da manha, para fazer a vitamina de banana pro seu neto preferido, que não teve a coragem de se mudar com o resto da familia, onde estavam agora inacessíveis para aquela velhinha. Andava e nem reclamava. Estava acostumada, e ia conversando. Sempre tinha vontade de comprar uma cheta, que via na Joana Angelica, mas nunca comprava. O incenso sim. Comprava todo dia, em um senhor que tinha um tabuleiro com todos os tipos de ervas e especiarias. Nunca comprava mais que o necessário para um dia, somente na sexta, que comprava por três dias. Não queria deixar envelhecer, pois a entidade podia não gostar. E se lembrava todo dia do princípio de incêndio que tinha ocorrido no seu quartinho de adoração, um dia depois de ter aproveitado o incenso do dia anterior como oferenda. E mesmo agora que estava mais fraca e mais velha, ainda assim não havia mudado sua rotina.
Junto com os cinco filhos, foram a mulher e a neta que havia nascido uma semana antes da mudança. Quando se mudaram so tiverem que esperar dois dias para o carpinteiro entregar o berço e o resto da mobília da casa. E tirando aquele primeiro mês de adaptação, os dias foram maravilhosos naquele bairro novo. Muitas casinhas de veraneio vieram a se transformar em casas de morar mesmo. E tudo foi mudando naquele lugar. Meio que ao mesmo tempo foi todo mundo chegando, e muito rápido ja estava bastante povoada a Pituba daquele época, com seus prédios modernos de portões de alumínio, com suas casas de muros baixos, perto do mar. A invasão do Chega-Nego era ali perto, mas não fazia medo nem afastava ninguém. Muito pelo contrário, foram os invasores que foram invadidos.
De tardezinha aquele pai, que era livreiro, chegava do seu escritório, na Avenida Sete, e na nova varanda reunia os cinco filhos, abria o pacote de pão quentinho, entupia todos de manteiga e colocava uma xícara de café, cheia até a metade, com a outra metade de leite condensado Moça. Quando terminava de preparar o café de todos já era tempo de preparar um novo pão pra cada um, que comiam felizes da vida, olhando praquele céu vermelho, de quatro cores, com um marzão verdinho, verde de fim de tarde, verde de esperança de uma vida muito melhor que estava apenas começando.

7 comentários:

Anônimo disse...

poxa.. q fofinho, cico
:)

Anônimo disse...

que bom que vc tem postado com mais frequencia por aqui, cicero... aindanao li esse, mas ja ja eu leio. de antemao, fica o comentario
:)

Anônimo disse...

e vem aí... PITUBA! ap´roxima novela das seis.

Chico Bento disse...

Porra, Cerão, vou me espelhar em vc quando for escrever... De lenhar. A propósito, consegui corrigir aquelas "falhas" do blog. Adiciona ele na sua lista de links.

Anônimo disse...

eh pa ja chicão! gostei muito dali viu!? vou botar pa encabeçar!

Anônimo disse...

Estiva-Nostálgico...

Anônimo disse...

E assim começa um livro!! Sucesso moço!! Tô na torcida!!